A Serra Fina está entre os maiores desafios do montanhismo brasileiro. Seu percurso figura nas maiores altitudes do país, ficando atrás apenas da região da Serra do Caparaó onde é o Pico da Bandeira e a Serra do Imeri com o Pico da Neblina na Amazônia. Assim estes 3 cenários formam os mais altos cumes do Brasil.
A Travessia da Serra Fina
A Travessia da Serra Fina inicia-se na “Toca do Lobo”, no município de Passa Quatro – MG e finda-se em Itamonte. São aproximadamente 30 km de travessia, passando pelas cristas das belas montanhas da região.
Entre as principais montanhas do trajeto, algumas merecem devido destaque, já que são das mais altas da Serra da Mantiqueira, e algumas dessas as mais altas do país.
A Pedra da Mina com seus 2.798 metros de altura, além de ser o cume da Serra da Mantiqueira é a 5ª maior montanha do país. Numa travessia clássica de 4 dias ela é a base de pernoite do 2º para o 3º dia.

Serra Fina – Dia 1
Toca do Lobo – Acampamento Dourados: 7 km
Iniciando o trajeto na Toca do Lobo, é onde normalmente ocorrem as “ultimas checagens” e um bom lanche para então começar a imersão nesse universo de variações da natureza em 4 dias.
Após atravessar o riacho da Toca do Lobo (que é um bom local para coleta de alguma água), começa uma íngreme subida que termina no cume do “Quartzito”, que tem esse nome justamente por ter sua formação rochosa em quartzo abundante. Por isso em dias úmidos as partes rochosas desse trecho ficam bem escorregadias.
Um dos momentos mais belos da travessia, já ocorre bem antes dos maiores cumes. Trata-se do “Passo dos Anjos”, que é um trecho de trilha estreita pela crista das montanhas, de onde se tem um belo visual de ambos os lados. Dizem até que este trecho de trilha inspirou o nome da travessia de “Serra Fina”.
Depois do Quartzito e o Passo dos Anjos, a próxima missão era chegar ao famoso cume do “Capim Amarelo”, onde há o livro de registros e dependendo das condições físicas do grupo algumas expedições usam o local e os arredores para o 1º pernoite. Em nosso planejamento, fizemos uma pausa alí mas resolvemos avançar um pouco mais.
Seguimos além do “Maracanã” (local clássico de camping), antecipando um pouco o caminho do dia seguinte. Quem recomendou esse ótimo lugar foi o Alberto, que já realizou várias vezes essa travessia e conhece alguns “bons locais” pouco conhecidos.
Serra Fina – Dia 2
Acampamento Dourados – Pedra da Mina: 6 km
Após um belo café da manhã, foi hora de levantar o acampamento e seguir em frente. O segundo dia já começa com visuais incríveis com destino certo: A Pedra da Mina.
E tome subida! Logo de inicio uma boa subida pra aquecer e não é “só a subida”, também tem bambuzal (que adora agarrar a mochila, roupa, braço e qualquer outra coisa que conseguir… hahaha) e os capins elefantes que podem cortar mesmo de levinho qualquer parte exposta da pele (mãos e braços principalmente). Por isso é altamente recomendável fazer a travessia de manga comprida pelo menos.
Mas depois de vencidos os “primeiros perrengues” do dia, a altitude vai dando suas cartas e e a vegetação vai ficando mais rasteira, dando espaço aos visuais incríveis da travessia.
Pedra da Mina
Após boas horas de caminhada em ascensão, chegamos ao ponto culminante da Travessia da Serra Fina: A Pedra da Mina. De lá é possível ver várias cidades do Vale do Paraíba – SP e Rio de Janeiro. Mas as principais motivações de se pernoitar ali, são curtir o belo por do sol, o céu estrelado e o nascer do sol maravilhoso que surge atrás do Pico das Agulhas Negras (que é bem visível o desta altitude).
Já estive na Pedra da Mina algumas vezes (fazendo acesso direto via Paiolinho), mas uma coisa que me incomodou muito dessa vez, foi perceber que os roedores (os ratinhos da montanha) praticamente não tem mais receio de se aproximar de nós quando estamos manuseando comida. Infelizmente acredito que muitos “eco-defensores” (aqueles que só existem em fins de semana) devem alimentar esses animais por achar isso “bonitinho”, mas não tem a menor consciência do dano que isso pode causar. Uma pena se eu estiver certo.
Serra Fina – Dia 3
Pedra da Mina – Pico dos 3 Estados: 6,5 km
Com o belo nascer do sol na Pedra da Mina, era hora de batalhar pelo nosso café da manhã, já que se você bobear os ratos aparecem sem a menor cerimônia e levam sua comida embora.
Após levantar o acampamento nosso próximo destino seria o pernoite no Pico dos 3 Estados, mas para isso precisávamos atravessar o Vale do Ruah (aos pés da Pedra da Mina).
O Vale do Ruah é um do melhores momentos da travessia. Terreno plano com algum “charco” é verdade… hahaha, mas por ali passa um rio de águas límpidas e refrescante. Ótimo para reabastecer os cantis e seguir.
Após o “passeio” pelo Ruah, é hora recomeçar a subir até o cume do “Cupim de Boi”. De lá a vista é maravilhosa e já é possível ver onde estávamos no inicio da manhã (Pedra da Mina) e ter uma noção do quanto havíamos avançado.
Seguindo pela crista do Cupim de Boi com muitos “sobe-desce” curtos, fomos nos aproximando do fim do 3º dia de travessia. Após esse trecho fizemos uma boa pausa numa mata mais densa que antecede o ataque ao cume do 3 Estados.
Pico dos 3 Estados
Chegamos no cume do Pico dos 3 Estados ainda no inicio da tarde. No céu azul, algumas nuvens e uma brisa leve e fresca coroava nossa chegada ao último grande pico de toda a travessia.
Escolhemos bons lugares e montamos o acampamento. Felizmente durante toda travessia não precisamos competir espaço com outros grupos. Inclusive a data foi escolhida a dedo para tentar evitar ao máximo isso. E deu certo!
Observar o pôr do sol no Pico dos 3 Estados foi um privilégio e tanto. Não menos emocionante foi o nascer do sol no 4º e último dia de travessia.
Serra Fina – Dia 4
Pico dos 3 Estados – RPPN Instituto Alto Montana: 10,6 km
O quarto e ultimo dia de Serra Fina, ao mesmo tempo que é aliviante também um pouco nostálgico, triste. Porque é o dia de deixar toda essa beleza pra trás e voltar para a vida maluca a qual estamos acostumados com nossos confortos tecnológicos em troca do precioso tempo de vida.
A volta à civilização descendo o 3 Estados ainda não é aquela tranquilidade de percurso. Aliás nenhum dia de travessia da Serra Fina é “tranquilo” quando se trada de desnível de relevo. Entre descidas (predominantes) e alguns trechos de subida, ainda passamos pelo Alto do Ivos e aquelas maravilhas de bambuzais que não queriam deixar a gente partir (hahaha).
Após algum tempo de descida, já avistamos o Monte Picu, que é bem visível da BR-354 que liga a Dutra à Itamonte e assim conseguimos ter noção de que a jornada estava quase completa!
Serra Fina – Chegando ao fim
Após horas de descida, no início da tarde chegamos ao nosso ponto final. A RPPN Instituto Alto Montana foi o local escolhido para terminar a travessia. Lá o Alberto (que conhece os mantenedores do Instituto) conseguiu um bom banho de ducha pra gente, além de conhecermos uma bela cachoeira da propriedade. Sem dúvida fechamos com chave de ouro!
Serra Fina – O que levar?
Uma das perguntas mais recorrentes para este tipo de aventura. Bem, a resposta depende muito do roteiro escolhido (quantos dias de travessia), como foi contratada sua travessia (inclui comida, barraca, saco de dormir?).
O que vou descrever aqui serve apenas de parâmetro, pois não contratamos agência, fizemos a travessia carregando 100% de nossos itens. E isso foi o que levei:
- Mochila Osprey AETHER AG 70 litros
- GoPro Hero 6 + Acessórios
- DJI Mavic Air + Controle Remoto + 3 Baterias
- Celular Samsung Galaxy S9+
- Power Bank 10.000 mAh
- Lanterna de cabeça + Pilhas
- Bolsa de Hidratação Osprey 2,5L
- Garrafas pet de água 1,5L ( x 2 vazias)
- Clorin (purificador de água)
- Protetor solar
- Protetor labial
- Canivete
- Muda de roupas quentes para pernoite (calça, blusa, touca, meias, luvas – lã e/ou fleece)
- Muda de roupas leves de trekking (calça, camiseta manga comprida, meia respirável, 2 x cuecas, corta vento)
- Saco de dormir pelo menos entre 10ºC e 0ºC
- Isolante térmico
- Barraca técnica AZTec Mykra
- Panela / Frigideira / Talheres
- Mix de amendoim, castanha, uva passa
- Chocolate tipo MMs
- Bala de goma
- Atum enlatado
- Feijão pronto
- Arroz pronto
- Picado de calabresa e bacon
- Ovo cozido
- Picado de cebola e alho mergulhado no azeite
- Macarrão instantâneo
- Sopa Instantânea
- Chá / Café / Açúcar
- Bolacha água e sal
- Queijo tipo Polenguinho
- Massa pronta tipo Rapi10
- Bolacha recheada
- Kit Primeiros Socorros + Medicamentos periódicos
- Sacos de lixo (tanto para orgânicos quanto para recicláveis – nada fica na montanha – NEM PAPEL HIGIÊNICO!)
- Porção de Cal – Para transporte dos dejetos (nº 2)
*Provavelmente esqueci de algo, mas em geral foi isso! hahaha!
**Peso da minha mochila (sem água nas garrafas pets): 21Kg
Serra Fina – Água
É possível encontrar água EM TODOS OS DIAS de Serra Fina. Mas eu encontraria todos os ponto de água sozinho?? NÃO!!! Mas encontramos! Não por sorte, por competência dos experientes naquele ambiente.
Mesmo sabendo que os pontos de água existem, nunca se sabe se eles terão água abundante ou se simplesmente terão alguma água. Então siga as recomendações das pessoas experientes neste trajeto. Eu por exemplo SEMPRE levo água de sobra… “Ahh mais aí é mais peso, mimimi, mimimi…” Tenho total consciência disso, mas pago o preço da minha tranquilidade em ter água caso algo saia errado ou haja algum imprevisto.
Serra Fina – Quando ir?
É simples! A temporada de trekking e montanhismo no nosso país ocorre nas épocas secas de pouca chuva! Assim é mais provável que o céu esteja mais aberto, visuais mais bonitos e pouco risco de se molhar, tomar um raio na cabeça ou ter tudo devastado pela aguá das chuvas. Só que dentro dessa época, temos nos meses de Junho e Julho as férias escolares por isso uma concorrência muito maior em tudo que é destino turístico, inclusive na montanha. Por isso (e por ter disponibilidade) eu fujo de viagens nesses meses. Fizemos a Serra Fina em Agosto e foi tudo muito tranquilo. Acredito que à partir de Abril já seja possível pegar boas datas.
Serra Fina – Agência, Guia ou Solo?
Essa é a questão fundamental de todo o prazer de curtir uma travessia dessa. Então vou resumir em perguntas e respostas para você se identificar em seu perfil, afinal o que vale é curtir o lugar, sentir a vibe e não sofrer de taquicardia no meio de uma subida ou ter aquela vontade de jogar a mochila ladeira abaixo e sumir…
Está acostumado a fazer travessias no estilo “raiz” (levando tudo que precisa)? Já andou por quilômetros carregando uma mochila pesada? Pratica alguma atividade cardiovascular e/ou de fortalecimento muscular frequentemente?
- Se a resposta é negativa, procure uma agência de turismo. Eles te darão toda orientação e todo suporte por toda travessia. E o melhor, ainda carregarão a maior parte do peso que você iria carregar, vão deixar a comida e o camping prontinho. Assim você vai curtir muito mais o passeio, as paisagens e energia do lugar.
- Se a resposta é positiva, você pode apenas contratar um guia, que conduzirá o grupo, mostrará e identificará as belas paisagens e quase sempre no fim, você ganha um novo amigo! Recomendo demais!
- Também se a resposta é positiva mas você pensa em encarar essa jornada solo ou com amigos mas sem conhecer o trajeto (porque você tem um GPS ou um Mapa), meu amigo, esqueça isso. O risco disso dar errado é enorme e você caminhará por 4 dias (se tudo der certo), sem ter a certeza de que está no caminho correto. Particularmente acho que não compensa.
Fomos em um grupo de amigos de 4 pessoas (todos habituados com trekking e travessias com as cargueiras), uma delas conhecia muito bem a Travessia da Serra Fina (ele é guia de montanha – Alberto da Scallare), na região da Pedra da Mina eu e o Thiago também já conhecíamos o entorno. Mesmo assim, eu diria que se o Alberto não fosse, nem cogitaríamos essa aventura.
Serra Fina – Como se preparar?
Como costumo dizer, isso é ponto muito particular. O fato mesmo é que a Travessia da Serra Fina é sim “pesada”, com muitos sobe-desce curtos e longos, com exposição ao sol e ao vento (chuva se der azar). Mesmo com o conforto do apoio de agências você ainda terá que carregar alguma bagagem, ou seja, sem nenhum preparo essa travessia será 0% prazer, 100% desconforto.
Já aos praticantes de esportes ou exercícios frequentes, digo que você precisará de fôlego, mas muito mais que isso vai ser sua resposta à pressão psicológica que esse ambiente/trajeto pode causar. Eu acho que isso é o maior responsável pelo “desgosto” de algumas pessoas para esse tipo de ambiente. Então esteja física e psicologicamente preparado para o desgaste. Vencido isso a travessia será maravilhosa, e você conseguirá se conectar à energia desse lugar!
Fechando o preparo, poderia recomendar principalmente:
- Exercícios cardiovasculares e aeróbicos
- Condicionamento físico
- Teste de resistência: encha sua mochila, suba escadas, caminhe com ela, faça trilhas de bate-volta, etc.
O mais importante é você se sentir confiante para essa jornada que será inesquecível!
